Na quarta‑feira (14), o ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, apresentou a agenda de 2024 e anunciou um objetivo ambicioso para o setor aeronáutico brasileiro: elevar a fatia da Embraer (EMBJ3) no transporte aéreo doméstico de 12% para 25% até 2026. Na prática, a meta implica dobrar o número de aeronaves fabricadas no país que circulam nas rotas nacionais.
A proposta faz parte de um plano mais amplo de fortalecimento da indústria aeroespacial nacional e de redução da dependência de fabricantes estrangeiros. Costa Filho destacou que, enquanto nos Estados Unidos cerca de 50% da frota comercial é da Boeing e na França aproximadamente 48% da Airbus, o Brasil ainda tem menos da metade da participação da Embraer em seu próprio mercado. “Queremos dobrar o número de aviões da Embraer viajando pelo país”, afirmou o ministro, ao incentivar as companhias Gol e Azul a ampliar a compra de modelos como o E‑195‑E2, o E‑190‑E2 e o futuro E‑2‑X.
Os argumentos que sustentam a iniciativa são múltiplos. Primeiro, a nacionalização da frota gera efeitos multiplicadores na cadeia produtiva: fornecedores, centros de manutenção e serviços de apoio ganham volume e podem melhorar a competitividade internacional. Segundo, a presença de mais aeronaves locais reduz a vulnerabilidade a flutuações cambiais e a eventuais restrições de exportação de peças. Por fim, o aumento da demanda interna cria condições favoráveis para que a Embraer retome ou amplie linhas de produção no território brasileiro, contribuindo para a geração de empregos qualificados.
Entretanto, a meta ainda carece de detalhes operacionais. O governo não divulgou quais serão os mecanismos de apoio financeiro – como linhas de crédito, garantias ou incentivos fiscais – nem as possíveis alterações regulatórias que facilitem a compra de aeronaves nacionais por parte das companhias aéreas. Analistas apontam que a viabilidade dependerá da capacidade da Embraer de oferecer condições de preço e performance competitivas frente a rivais como Airbus e Boeing, especialmente em um cenário de alta volatilidade nos preços de combustíveis e de pressão por redução de custos operacionais.
A resposta das empresas aéreas ainda é incerta. A Gol, que já possui cerca de 30% de sua frota de fabricação brasileira, tem sinalizado interesse em renovar parte de seus aviões regionais com novos modelos da Embraer. A Azul, por sua vez, tem mantido uma estratégia mais diversificada, mesclando Airbus A320neo e Embraer E‑190‑E2. A decisão de ampliar a compra de aeronaves nacionais dependerá, em grande parte, da disponibilidade de capital, das condições de leasing e da percepção de risco associado ao suporte pós‑venda.
Se a proposta for concretizada, o Brasil poderá alcançar um patamar de autossuficiência ainda inexistente na aviação comercial, aproximando‑se de modelos adotados por países com grandes indústrias aeroespaciais. O sucesso da iniciativa, porém, exigirá um alinhamento estreito entre governo, fabricante e companhias aéreas, bem como políticas claras de financiamento e incentivos que tornem a Embraer uma escolha natural para as rotas domésticas.